Parteira e ao mesmo tempo Vó!!

Este é o relato de uma Enfermeira Obstetra ao assumir dois importantes papéis durante o nascimento de sua netinha:

Avó, sendo apoio familiar;

Parteira, sendo a responsável técnica.

Enfermeira Maria Morais

Agregar o trabalho, estudos, afazeres domésticos, bem estar dos filhos e se manter presente na vida dos netos, é um dos desafios para muitas mulheres que se tornam avós na vida moderna.

Na minha infância existia a figura típica da avó: um coque nos cabelos e saias abaixo dos joelhos, com anáguas. Mulheres que se dedicavam a ajudar na criação dos netos.

Venho de uma infância humilde. Meus pais se separaram quando os filhos ainda eram pequenos, inclusive o mais novo era bebê de colo.Por precisar trabalhar fora, minha mãe tornou-se um pouco ausente, e não lhe sobrava muito tempo para estar conosco.

Mas lembro-me dos banhos, das idas às vendinhas, do seu canto. Sim, como ela cantarolava!

E nesse período, a figura da minha avó Joaquina, foi muito marcante.Exemplo de carinho, proteção e abrigo.

Mesmo sendo analfabeta, minha avó conseguiu nos ensinar a ler e escrever (soletrando o B+a:Ba).

Com sol ou chuva, ela nos levava e buscava todos os dias na escola. E, para isso, percorria uns 2 km a pé. Essa era a distância entre a escola e a casa onde morávamos.

Cuidava dos afazeres domésticos, da nossa alimentação, ninava, brincava e contava historias. Quanta saudade eu sinto ao me lembrar desses momentos.

Velha, já enfraquecida pela idade, ela nos ajudou ainda a criar os primeiros bisnetos. Jamais se deixou abater pelo cansaço.

Tenho três filhos.Optei por trabalhar no período da noite, não por ser prazeroso, mas para conseguir passar mais tempo com eles.Eu os criei com muito amor e apego, sempre presente, corrigindo, conversando muito sobre a velocidade do tempo, as consequências dos erros e as cobranças que a sociedade impõe.

Infelizmente, com a tecnologia, a modernidade, a multiplicidade de tarefas do dia a dia, a luta constante que cada um trava por sustento e sobrevivência, toda a nossa família sempre esteve longe. Não era isso que o meu esposo Noélio e eu desejávamos.

Sonhávamos com a casa cheia, avós, tios e primos por perto. Sofremos com isto, mas hoje compreendemos que a vida segue seu rumo. Mas acreditamos que ficou um vazio, em relação ao convívio familiar, na memória dos nossos filhos.

Com o passar dos anos, meu primogênito, então rapaz, se preparou para casar, para ser mais exata: em setembro de 2016. De repente, mais uma surpresa envolveu a todos com muita alegria: o primeiro netinho, ou netinha, tinha sido gerado (a), estava a caminho, mas ainda era cedo para saber o sexo.

Por ser profissional da área e integrar a Equipe de Parto Domiciliar Planejado Obra Prima como Enfermeira Obstetra, realizei as consultas pré-natal, compartilhadas com a Drª Mariana Dietz, a quem sou imensamente grata.

Acompanhei bem de perto todo o processo gestacional, concordamos que seria um parto domiciliar planejado. Na verdade,eu não estava segura de que essa era a escolha do meu filho e da minha nora.Tinha receio de estar interferindo nessa decisão.

Como sempre faço nos meus atendimentos, enfatizava a possibilidade do parto hospitalar, ou da transferência, se necessário.

Formamos então a equipe para acompanhar e assistir o parto. Na entrevista, eles se mostraram muito seguros em relação à escolha por um parto humanizado, longe de violência obstétrica e de intervenções desnecessárias.

Elaboramos o plano de parto, tudo foi devidamente esclarecido. E eu ficava cada vez mais ansiosa à espera do grande dia. Era imensa a vontade de ver o rostinho, de saber se tudo iria sair conforme o planejado.Enfim,os sentimentos de avó falavam mais alto!

Com a descoberta de que era uma menina, e o enxoval cor de rosa preparado, o sonho estava se tornando cada dia mais real.Só precisávamos esperar a hora dela.

No dia 25/08/2017 ás 07h20, o meu filho Randerson bateu na janela do meu quarto, e eufórico gritava: “mãe, mãe, a Eliane está perdendo sangue”. Eu pedi para ver as fotos. Trabalho muito com visualização de fotos, tanto para perdas de tampões como hemáticas.

Eu identifiquei o sangramento de colo. Tomei um banho e um café.Sentia palpitações de tanta ansiedade.Fui ao encontro deles por volta das 09h. Minha nora ainda estava tranquila, sem acreditar no que estava acontecendo, até permitiu que a minha filha Renata Júlia fizesse a pintura de barriga. Muita emoção envolvia aquele momento!

Por volta de 12h00, às contrações começaram a pegar ritmo, e ela já não encontrava mais posição de alivio. Depois de 40 minutos fizemos o primeiro toque vaginal, e nos surpreendemos com 5/6centímetros de dilatação. Era muita alegria!

Meu filho havia saído para comprar almoço, e retornou ansioso depois que ela postou sobre a dilatação no nosso grupo online. Grupo que sempre criamos com cada família para que todos acompanhem os acontecimentos durante toda a gestação, até o pós-parto.

O “neguinho” (meu filho) implorava:“Quero o meu pai.Mãe chama o meu pai aqui”,e eu falava:“menino, o pai agora é você”. O pai do pai, no caso o avô, estava de plantão e acabou sendo liberado para participar do momento do parto. Amo minha família!

De repente, tudo foi se transformando, a energia ficou intensa, o aromatizador com essência de canela, que costumo usar, começou a exalar o cheiro de parto, de vida que estava para chegar.

Eliane tentou todas as posições e nada. Fiz outro toque e constatei que ela já estava com 7/8 centímetros.Resolvemos, então, avisar a enfermeira obstetra auxiliar Léia Azevedo e a fotógrafa Juliete,crédito das fotos que ilustram este artigo.

Eu experimentei uma profunda mistura de emoções, como mãe, sogra, doula e parteira. Multipliquei-me entre as demandas, em meio à ciência e os meus próprios sentimentos!
Ás 16h16, no chuveiro, ouviu-se o primeiro chorinho.Em minhas mãos estava a pequenina Eloah Rafaela!

Ela foi acolhida e colocada em contato pele a pele com a mãe, para ser amamentada em sua primeira hora de vida. Em seguida, foram realizados todos os procedimentos assistenciais necessários com mãe e filha, respeitando todas as vontades após avaliação de cada situação.

Enfermeira Maria Morais

Tudo ocorreu bem! Sem correria, sem gritarias, sem atropelos. Mais um nascimento digno e respeitoso!

Eu pesquiso muito sobre a importância do papel da avó na criação dos netos, em diversas culturas. Isso tem despertado meu interesse. O modelo de criação na África e na China, por exemplo, envolve todos os familiares no processo da educação. A responsabilidade não é direcionada somente aos pais, mas à toda sociedade.

Esse formato de educação está cada vez mais distante no Brasil. O que vemos é uma evidência cada vez maior de desapego e desrespeito pela pessoa idosa, que carrega consigo saberes e experiências de toda uma vida, mas que acaba, muitas vezes, sendo abandonada em asilos em meio à solidão, sendo privada do convívio familiar.

Família Enfermeira Maria Morais

Sou grata por ter participado desse evento de uma forma tão próxima. Nessa data nasceu também uma avó cheia de amor e expectativas. Serei um pouco do que sou como mãe, seguindo o exemplo do que vivi com a minha avó, mas tomando sempre o cuidado de não ser invasiva na vida deles. Quero apenas cumprir o meu papel para o fortalecimento desse vínculo, iniciado de uma forma tão sublime.

Gratidão aos profissionais envolvidos: Mariana Dietz; Léia Azevedo e Albênica Bom Tempo, e aos que se disponibilizaram a nos apoiar:Tayná Tomé e Lizia Lopes.

Por: Maria Morais 2017-09-18